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quarta-feira, 6 de março de 2013

Janela de Emergência




Hoje foi um dia bem diferente. Nada como dar uma voltinha no centro da cidade do Rio de Janeiro. E de ônibus! Pois é, dei sinal e o famigerado parou fora do ponto. Entrei. Certifiquei que estava mesmo indo para o lugar que queria. Olhei em volta. Lotado! Não tinha jeito já que estava atrasada. Passei na roleta e ops! Errei o valor. Faltavam cerca de R$ 0,25 centavo. Pedi desculpas e toca a procurar a bolsinha de moedas entre uma curva e outra. Enfim, consegui um lugarzinho. O bom era que tinha ar condicionado.

Olhei em volta e vi rostos amassados, cansados, de quem acordou antes da hora só para chegar mais cedo ao ponto e conseguir ir sentado até o seu destino. Pessoas sentadas. Pessoas em pé tentando se equilibrar com suas bolsas e mochilas. Pessoas indo para o trabalho. Pessoas anônimas. Mas que todos os dias estavam naquela mesma condução e naquele mesmo horário. E lá se foi o ônibus cumprindo sua missão sem resmungar do trânsito lento na Avenida Brasil.

Bem na minha frente uma janela grande dava a visão da estrada, do mundo lá fora. Prédios, casas, pessoas apressadas, mais carros, mais movimento. A vida comum de um dia da semana. Igual a qualquer outro sem qualquer alteração. E eu ali, como uma intrusa, observando cada movimento por menor que fosse e tentando parecer igual a todo mundo.

De volta à janela enorme, vidros transparentes e limpos. Com exceção daquele aviso que parecia perdido naquela imensidão. Será que alguém mais prestou atenção naquele aviso? Pensei. Não! Acho que não! Talvez uma rápida olhada, uma visualização informal, sem maiores observações.  Mas eu fiquei olhando e me perguntado se ele teria algum valor informativo, ou estava ali só para me fazer rir.

Por certo o leitor já tenha se deparado com algo parecido, afinal, cada condução agora tem aquela “janela de emergência”. Os avisos mais comuns dão a entender o seguinte: “Em caso de acidente puxe a alavanca e empurre o vidro”. Ok! Fácil! Fácil!

Mas aquele aviso “sem vergonha” bem na minha frente dizia: “Em caso de acidente pegue o machadinho e quebre o vidro da janela”! Como assim? Imagine a cena: O motorista perde o controle do ônibus, o veículo dá cambalhotas ou derrapa pela avenida, provavelmente as pessoas são arremessadas umas contra as outras, muita gente se machuca, braços quebrados, corpos doloridos, mulheres gritando... Então eu, acidentada, tenho que pegar o “infeliz” do machadinho e reunir minhas forças para quebrar o vidro? Sinceramente... Completamente sem noção!

Concordo que em caso de pânico as pessoas são capazes das maiores proezas! Talvez o autor da ideia do machadinho tenha pensado assim. Mas fiquei ali dando gargalhadas na minha mente, tentando não transparecer minha louca imaginação e pedindo a D-us para chegar inteira ao meu destino.

Marion Vaz

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Só pra quem já andou de BUZÂO


Lá vem ele: azul, amarelo, vermelho, marrom, laranja com preto...  Tanto faz! A cor do ônibus depende do destino! Uns mais modernos outros não! Mas lá está ele, parado na estação, imune  a tudo, imune a todos, esperando a lotação!

E como lota!


Às dúzias,  as pessoas entram e tentam se acomodar aqui, ali, ou pertinho do trocador!

E lá vem mais gente! Em cada parada! Em cada esquina! Já estou até acostumado! Empurra, empurra!  Pisão no pé!  Bolsada! Com licença! Com licença! Desculpe!

Se tiver sorte até consegue senta um pouco, mas tem sempre uma velhinha, ou mãe com criança no colo e como um bom cavalheiro a gente cede o lugar! E tem que sorrir! Tem gente que não levanta não! Finge até que está dormindo! Que vergonha! E lá vamos nós!

E como corre o infeliz até chegar ao destino! E lá vem outra curva, e a gente vai junto de um lado pro outro! Sem pedir licença ele freia e todo mundo vai frente! Quem olha de longe até parece uma dança!

É, tem jeito não! Pior do que andar a pé, é andar de Buzão!


Marion Vaz

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Paralítico de Betesda


A lembrança de dias alegres não afastou a angustia que sentia naqueles derradeiros minutos de sua vida. Jesus se rende ao cansaço e deixa o corpo em contato com a terra. As mãos agarraram as partículas de pó e apertam-na entre os dedos. Isso o incomoda e então Jesus limpa as mãos nas vestes e volta à posição original.



O homem gostaria de refugiar-se no passado, mas é inútil. As horas avançam indicando que o momento fatal se aproximava. A solidão no Jardim do Getsêmani aumentava quando se lembrava da multidão que o rodeava há tão pouco tempo atrás. Foi então que surgiu uma lembrança do passado:

O dia estava clareando e ele estava caminhando pelas ruas de Jerusalém, pouco a pouco uma multidão se junta a ele. O povo o segue por todo lado, querem ouvir seus ensinamentos, querem receber curas, querem vê-lo, senti-lo, tocar em suas vestes. Jesus era agora uma figura popular e precisava conviver com isso, às vezes, até mesmo seus discípulos tinham dificuldade em controlar a multidão.

As ruas da cidade estão movimentadas, Jerusalém era uma cidade cheia de gente, de fiéis que vinham de toda a parte para oferecer sacrifícios ao Deus de Israel. Imensos portões de entrada levavam o viajante em direção a uma mistura de regozijo, paz e fé. Na páscoa, a cidade ainda se tornava mais atraente e festiva. Era prazeroso andar por suas ruas, ver seus belos e imponentes edifícios. Um dia, um de seus discípulos elogiou a bela estrutura do Templo. "Pedra sobre pedra..." Pensou o carpinteiro.

Mas naquele dia era diferente, seus passos o levaram a outro lugar, tinha que passar pela Porta das Ovelhas. Próximo a ela havia um tanque que em hebreu era chamado de Betesda. O povo gostava de contar histórias e havia uma em especial que circulava entre as gentes que de tempos em tempos, um anjo movia as águas e o primeiro que ali descesse e entrasse nas águas, sarava de qualquer enfermidade. De longe, via-se a aglomeração, eram cegos, mancos, paralíticos e enfermos a espera de um milagre.

Jesus já conhecia aquele lugar, aliás, ele conhecia cada cantinho daquela cidade. Desde pequeno seus pais faziam peregrinações em épocas festivas. Uma vez, aos doze anos, perdeu-se deles e ficou no Templo por três dias. Mas agora adulto, podia andar por onde quisesse e resolveu aproximar-se desse lugar. Ali depara com um quadro não muito atraente, o lugar estava cheio de pessoas enfermas e moribundas.

Um homem jogado num canto qualquer chama a atenção do mestre, era paralítico a trinta e oito anos e não havia ninguém que o ajudasse. Todo o dia vivenciava aquela mesma cena, em vão tentava se arrastar entre as pedras para chegar às águas. E outros com mais agilidade passavam a sua frente e recebiam a cura. Saiam felizes, glorificando a Deus, acompanhados de amigos e parentes. Outros passavam por cima do pobre paralítico, pisavam nele, empurrando-o para o lado e seguiam seus caminhos. O pobre o homem já sem forças recolhía-se em um canto e ficava ali gemendo, chorando, a espera de um milagre.

O homem de Nazaré, o Profeta, O Messias, Mestre, Jesus Filho de Davi, ou seja lá como o chamassem, chegou perto do paralítico. Não podia ficar alheio a sua dor e num gesto de misericórdia falou:
- Queres ficar curado?

O homem olha para cima e contempla a sua frente um homem forte, com braços largos, filho de carpinteiro, acostumado a trabalho braçal. O rosto queimado do sol de tantas andanças. Do modo como se vestia. parecia um judeu comum. Mas o doente não estava em posição de rejeitar ajuda e conta sua triste história. Com lágrimas nos olhos diz que agora já era tarde, que o anjo já tinha movido as águas e alguém fora abençoado.

Jesus sorri concordando que conhecia aquela história. Desiludido o pobre paralítico imagina que se Jesus tivesse chegado um pouquinho mais cedo, só um pouquinho mais cedo, poderia ter ajudado a entrar no tanque. Certamente ele abriria caminho no meio da multidão e o colocaria nas águas.

Mas ainda não era tarde para um milagre. Jesus se compadece do pobre homem e fala com autoridade:
- Levanta! Toma tua cama e anda!
- Hum?! O homem parece confuso. Levantar?
- Levanta e anda! Repete o Mestre.

A voz de Jesus entra pelos ouvidos do paralítico como voz de trovão. O corpo estremece. Os ossos do corpo começam a estalar e as pernas se esticam. O homem crê. As forças se renovam. E depois de tantos anos, ele consegue ficar de pé.

Atordoados, muitos dos que ainda circulam pelo tanque parecem não acreditar naquele milagre. Um reboliço de vozes e comentários. Alguém chora de alegria. O homem tenta dar o primeiro passo, mas cambaleia. Tenta de novo e dá outro passo. Logo está andando de um lado para outro. Passos firmes. As pessoas começam a glorificar a Deus. O homem que era paralítico agora está correndo, saltitando de alegria.

Jesus precisa continuar seu caminho e sai dali. Curado daquela enfermidade, o homem também vai para a cidade. Excluído da sociedade há tantos anos, agora caminha pela rua levando a cama, sem se dar conta que era shabat.

Marion Vaz

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Fruto Proibido

Lá está ela, no meio do jardim!
Formosa e carregada de frutos.
Parecem tão belos, desejo sentir o aroma.

Passo a passo chego mais perto
Como se algo me atraísse. Talvez não sejam assim tão ruins.
A falsa amiga também está lá, ela me observa,
Sorri como se dissesse: Não tem nada de mais em ver!




Chego mais perto, mais...
Perto demais.
A cor vibrante me cativa, preciso tocar, preciso...




Olho a minha volta, não há mais ninguém.
Ninguém para me criticar, ninguém para me acusar.

Rasteira, a serpente caminha a minha volta,
E destila o seu veneno cruel: Pegue! É seu! Não queres ser igual a Deus?

Envolvente, deslumbrante, lá está ele: O fruto proibido!
As minhas mãos o tocam, deslizam sentindo a leveza,
O aroma me atrai e meus lábios o desejam. Coma! Sinta o sabor!

A razão falha, as Ordenanças desaparecem encobertas por uma névoa. Não posso mais resistir à tentação! Pensa a Bela do Édem.

Na primeira mordida a inocência se esvai,
E o desejo toma forma de...
Pecado!



Marion Vaz

sábado, 16 de outubro de 2010

Um rosto na multidão

Jesus caminhava em direção a casa de Jairo e uma multidão o cercava. De longe se via uma mulher caminhando com dificuldade, sofrendo, mas tentando passar a frente dos demais. Ela queria chegar mais perto. Precisava chegar. Precisava tocá-lo, poderia ser apenas em suas vestes. Pensava. Mas havia outras pessoas que queriam ficar ao lado de Jesus e empurravam-na para trás. E a mulher quase sem forças recomeçava a caminhar.

À medida que Jesus andava aumentava o número de curiosos. Alguns queriam apenas vê-lo e a distância entre a mulher e Jesus parecia aumentar a cada passo. Dentre tantas pessoas havia os curiosos e os críticos. Mas muitos estavam aflitos por causa de algum problema ou enfermidade e criam que só Jesus podia libertá-los.

E havia aquela mulher enferma, esvaindo em sangue, desenganada pelos médicos que desesperada esticava os braços e os dedos das mãos. Em sua mente um só pensamento: Preciso tocá-lo!

Mas Jesus não parecia ter visto a pobre mulher, nem tão pouco ter ouvido seus gemidos. À medida que caminhava aumentava a distância entre eles. Com lágrimas nos olhos a mulher pensou até em desistir. Não tinha mais forças para seguir em frente.

Até que um novo pensamento a impulsionou a vencer os obstáculos: “Se tão somente tocar em suas vestes, mesmo que seja na orla de sua roupa, sararei!” (Mc 5.28). Empurrando os outros, pedindo passagem, ela abriu caminho no meio da multidão e conseguiu chegar perto de Jesus. Não precisava agarrá-lo, apenas tocar!

Num grande esforço esticou os braços por uma pequena brecha entre uma pessoa e outra, a ponta de seus dedos toca na roupa de Jesus e o milagre acontece. Ela para de caminhar. Jesus segue em frente e a multidão atrás. De repente Jesus também para. Os discípulos ficam perplexos com sua pergunta: Quem me tocou? Argumentam que não sabem. O círculo de pessoas em volta de Jesus se abre e o Mestre procura um rosto na multidão. Quem me tocou? Insiste. "De mim saiu virtude, eu senti".

A mulher chega mais perto, sem acreditar que agora estava tão perto de Jesus! Podia ver seu rosto, seu olhar... Mas de cabeça baixa responde baixinho: Fui eu Senhor. Fui eu quem te tocou. Jesus olha com carinho e chama-a de filha. Ele confirma a cura sobre sua vida. A mulher agradece e chora e sorri. Há um explosão de louvores a Deus.

Jesus podia ter parado antes ou podia ter ido até a pobre mulher, mas não o fez. Esperou pacientemente até que ela conseguisse chegar perto dele. Perto o bastante para ser abençoada.

Mas eu convido você a olhar a sua volta e procurar um rosto na multidão. Abra caminho e ajude alguém chegar mais perto de Jesus. Há muitos que vencem as barreiras, que correm desesperados em busca de uma solução.


Mas há outros que ficam para trás.


Marion Vaz

domingo, 22 de agosto de 2010

Contos: Noites Escuras


- Bom dia senhora! Quer? Perguntou o enfermeiro oferecendo uma xícara de café. Mirian sorriu para o jovem estagiário e experimentou em pequenos goles, o líquido quente. Ela sorriu embora seus olhos e seu coração estivessem mergulhados numa imensa tristeza.


O jovem saiu do quarto e seguiu em frente pelo corredor do hospital distribuindo gentilezas aos pacientes e aos acompanhantes, que incansáveis, a beira dos leitos, esperavam um milagre.

Os raios do sol penetravam no quarto trazendo um pouco de luz aquele ambiente sombrio. Enfermeiros e médicos começaram o plantão, andando de um lado a outro do corredor, visitando os pacientes. Eles mediam a pressão arterial, liam os prontuários, receitando medicamentos ou dietas alimentares.

Doutor Hugo entrou no quarto da jovem Gabi e anotou alguns dados, Mirian olhou para ele e antes que pudesse fazer alguma pergunta, ouve o mesmo diagnóstico.
- Nenhuma mudança! Sinto muito. Falou em voz baixa e saiu. A mãe da moça deixou as lágrimas brotarem nos olhos e escorrer pela face. Ela segurou uma das mãos da filha e orou:
- Por que meu Deus? Por que? As indagações se transformam em pedidos, em gemidos de dor e sofrimento.

Depois eram as lembranças que vinham lhe fazer companhia, umas boas, outras não. Lembrou do dia em pela primeira vez abraçou o corpinho de um bebê na maternidade. Gabriela, enviada de Deus. Disse baixinho lembrando o significado do nome da filha. O primeiro aniversário, os primeiros passos, a primeira palavra. A festinha de quinze anos... como estava linda!

Gabi era uma moça alegre, desde pequena aprendeu a amar a Deus, agora cantava num grupo de moças, recitava poesias e também as escrevia. Obediente, bonita e cheia de vida até aquele dia...
- Posso entrar? Perguntou Sueli da porta do quarto. Era hora da visita. A mãe desperta e enxuga as lágrimas. Procura conter suas emoções diante da irmã, mas é impossível.
- Foi horrível! Um acidente... Tentava explicar. Um tiroteio... De repente... Gente caindo no chão, se escondendo... Ouvi gritos e um monte de sangue no chão e Gabi... Minha Gabi...
- Tudo bem querida. Eu vim o mais rápido que pude. Você não está só. Disse Sueli abraçando a irmã. As duas choram juntas, tentando consolar uma a outra.

Com muita dor no coração, ela repara na jovem desacordada em cima da cama. Tinha marcas no rosto, uma faixa na cabeça por causa da operação. A bala perdida entrou no crânio e os médicos conseguiram retira-la. O laudo médico não dava muita esperança. Os olhos da mãe estavam fixos no céu e os lábios pediam um milagre.
- É uma dor insuportável. Falou entre as muitas lágrimas.
- Pode haver seqüelas. A irmã tenta conscientizar a mãe da moça.

Mirian não quer aceitar aquela situação. Não devia ser assim. Não podia! O Deus que servia era o Médico dos médicos. Ela precisava se agarrar a sua fé no Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. As duas irmãs oram juntas, pedem ao Todo Poderoso, ao Jeová Rafa que envie a sua cura.

De repente, em meio a tanta dor, surge um louvor. As duas cantam, apertando as mãos. A melodia ultrapassa as paredes do quarto e voa até os céus.

Elas se despedem e Sueli vai embora deixando a irmã e a sobrinha.
- Vamos continuar orando.

Os dias se arrastam naquela ala de hospital, destinado a doenças cujos pacientes estão num quadro irreversível. Mirian resignada, respira fundo e numa lentidão espontânea procura colocar algumas coisas em ordem.

O anoitecer era sinônimo de solidão.

Ela senta numa poltrona e fica olhando o corpo da filha, imóvel sobre a cama. Vencida pelo cansaço, adormece, mesmo que por alguns minutos. Acorda em sobressaltos, assustada, olha ao redor, mas tudo está do mesmo jeito como antes. Ela fecha os olhos e suplica para não dormir, o corpo não obedece.

- Mãe! Ouve muito longe, como aqueles pesadelos que atormentam. A voz insiste: Mãe!

Os olhos se abrem, o livro sagrado pesa nas mãos e cai no colo, despertando-a. Ela agarra-o com força para não cair ao chão.

O corpo estava fraco pelo tempo que não se alimentava direito, o braço dormente, a mente ainda longe procura entender o que estava acontecendo. A moça está se mexendo, a voz estava fraca, mas insistia em chamar pela mãe.
- Filha! Mirian se levanta devagar ainda pensando que estava sonhando. Chega perto da cama e vê a filha de olhos abertos. Filha! Grita em desespero deixando o corpo cair sobre ela. As lágrimas molham a roupa branca e o rosto de Gabi.
- Mãe, estou com sede. Fala devagar.

A mulher esta nervosa demais, ela corre até a porta e chama pela enfermeira de plantão.
- Minha filha! Venha ver!

A moça de jaleco branco andar rápido pelo corredor imaginando que a paciente estava passando mal. Ela entra no quarto e se surpreende ao ver que o quadro clínico da paciente mudou. Ela chega mais perto, observa os equipamentos, lê o prontuário e diz que vai chamar o medido.
- O que aconteceu? Pergunta o doutor seguindo a jovem pelo corredor iluminado.
- Um milagre! Um milagre!

Gabi estava de volta a vida, sem seqüelas, sem maiores complicações. Mirian abraça a filha e ora baixinho agradecendo a Deus pela vitória. O médico entra no quarto e vê a jovem, fala com ela e constata:
- Senhora, é um milagre! A mulher sorri.
- Meu Deus é um Deus de milagres! Testemunha diante de todos.

De Marion Vaz

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um despertar diferente...

Fazia frio naquela manhã. O cheiro de terra molhada entrava pela brecha da porta. Cinco crianças enroladas em cobertores dormiam tranquilas em suas pequenas e frágeis camas. Do lado de fora, podia-se ver nas folhas das árvores respingos do orvalho. Alguns animais saiam de suas tocas à procura de comida.

No pequeno pomar uma goiabeira mostrava seus frutos amadurecidos. Mas adiante dona Maria cultivava uma horta com alface, agrião, cheiro verde e cebolinha. A bertalha crescia nas madeiras que cercava o quintal, formando um imenso muro verde.

Mais um dia comum para aqueles moleques que abriam os olhos, esfregavam as mãos para afugentar o frio e se espreguiçavam alongando os braços finos. Os mais velhos já tinham em mente as obrigações diárias: regar a horta, recolher o milho que crescia, ou qualquer outra fruta que estivesse pronta para comer.

As meninas limpavam o jardim, recolhiam as folhas que caiam das árvores e arrancavam com as próprias mãos as ervas daninhas que nasciam para tirar a beleza do jardim.

A casa não era grande e ainda havia cômodos em construção. A parte antiga já mostrava nos tijolos que o embolso estava se deteriorando. Mas em pouco tempo tio Esídio, que se considerava um ótimo pedreiro, daria um jeito em tudo aquilo.

O sol escondido atrás dos galhos do abacateiro penetrava timidamente pela brecha de janela de madeira. Mas aquele raiozinho insistia em cobrir o rosto de Wando. Não tinha jeito, era hora de levantar. O banho frio terminava a tarefa de espantar a preguiça.

Na cozinha, podiam-se ouvir os passos de dona Maria arrastando o chinelo velho no chão. Aquela boa senhora já beirava os quarenta anos. Mas que barulheira! Ela abria e fechava as portas do armário de ferro, tirando xícaras e copos, talheres e panelas. O pão quente saía do forno deixando no ar um cheiro gostoso que trazia todos os moradores para a cozinha. O café fumegava no fogo e depois era distribuído nas canequinhas com um pedaço do pão e uma travessa de angu.

Todos sentados em volta da mesa davam as mãos para a primeira oração do dia, agradecidos pela refeição. O pai estava longe, navegando em alto mar. Um olhar de dona Maria era o suficiente para manter os filhos quietos. As meninas, Nair e Olga, tinham entre nove e sete anos. Mesmo no período das aulas cada filho tinha suas obrigações dentro e fora de casa. Oscar, o mais novo, vivia fugindo de suas tarefas.

Quando seu José chegava de viagem trazia alimento e presentes. Não era de paparicar os filhos, mas era um bom pai. Enérgico, muitas vezes. Miguel, o filho mais velho, apanhava quando fazia algo de errado.

Tio Esídio chegou da rua naquela tarde e trouxe uma surpresa para os meninos. Era um papagaio. Tagarela! Daquele dia em diante tudo passou a ser diferente. Não é que o bicho aprendia tudo o que gente falava?! E repetia!

Aos primeiros raios do sol aquela voz aguçada, que já fazia parte da rotina do dia a dia, quebrava o silêncio da casa, tagarelando sem parar:




- Acorda dona Maria! Quero café! Quero café! Dona Maria! Foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi... Dona Maria! Quero café!








Marion Vaz

A história do papagaio que cantava o hino 15 da harpa cristã foi contada por Miguel Vaz.

A autora do conto deixou a imaginação fluir para trazer de volta as poucas memõrias de um tempo que já se foi.


domingo, 11 de abril de 2010

Contos - Uma Estranha Maneira de Encontrar com Jesus

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Ao cair da tarde, Ana e seus filhos faziam o culto doméstico. A oração inicial, a leitura bíblica era feita pelo esposo, que dava prosseguimento ao culto. Quatro crianças sentadas em banquinhos de madeira ouviam em silêncio. Marcos e Marta eram gêmeos e tinham oito anos. Lucas tinha sete anos e Maria apenas cinco. Os dois alunos maiores eram alunos da Escola Dominical e já sabiam se comportar e ter reverência na hora do culto. Quanto aos dois menores era preciso um pouco mais de paciência, e às vezes, um olhar mais sério do pai.

Lucas era o mais tagarela e não deixava os irmãos quietos. Enquanto a mãe arrumava a sala e a pequena Maria, via-o dando beliscões nos irmãos. O menino resmungava e pedia silêncio. O pai saiu do quarto com a Bíblia nas mãos e as crianças faziam cara de anjinhos. Uma espécie de medo misturada a respeito.

Do lado de fora da casa outras pessoas passavam pela calçada que beirava a estrada. Homens e mulheres apressados pela hora ou nervosos pelos problemas que os consumiam. Vidas que eram envolvidas pelas canções que escapavam pela janela aberta. Entre tantos passos apressados, surgem os de Jovelino, um homem forte com uma maleta de documentos nas mãos. O cabelo despenteado pelo vento e o rosto amargurado pelas desilusões, fazia contraste com o belo porte do homem.

Naquela manhã Jovelino sai atrasado de casa e caminha rápido pela rua em direção à rodoviária. Por coincidência ou providência divina, ao passar na frente da casa de seu João, ouve o homem fazendo sua leitura devocional matinal, em voz alta:
- “Vinde a mim todos vós que estais...”

Mas Jovelino não tem tempo de ouvir o restante do versículo bíblico, preocupado com o horário do ônibus que o levaria ao centro da cidade. Mas aquela mensagem o acompanha, ecoando em seu coração cansado e oprimido pelos problemas da vida. Outros dias se passaram e outras mensagens o perseguiram. Mas Jovelino não entendia aquele aperto no coração, aquela vontade de chorar, aquele vazio na alma. Na volta do trabalho descia do ônibus e começava sua trajetória para casa, onde por certo, mais problemas estariam a sua espera. Alguns metros pareciam quilômetros pelo jugo do pecado que carregava.

As casas eram juntas umas das outras separadas apenas por muro. Quando passava em baixo das janelas, mesmo que não quisesse, participava da vida alheia, mesmo que fosse por alguns instantes. Era barulho de rádio, esposas brigando com maridos, crianças chorando. Mas adiante morava uma velha ranzinza, depois seu Teodoro, um alcoólatra que batia na mulher. Depois vinha a casa dos crentes, o único momento de refrigério que experimentava. A musica que vinha de lá de dentro aquietava seu coração. Depois era a vez da casa de dona Zezé, ela fazia bolos. O cheiro era bom. Ele respirou fundo ao ver a casa verde onde morava. Lá estava um dos seus muitos problemas! Não conseguia viver em paz com a esposa.

Ele vinha caminhando devagar, como se quisesse adiar a chegada em casa. Os hinos na casa dos crentes podiam ser ouvidos de longe. Engraçado, ele gostava daquela melodia: “Por que te abates, ó minha alma...” De repente, o cântico parou. Duas crianças começaram a discutir:
- Empresta! Pediu Lucas.
- Não! É minha! Respondeu Marta segurando firme o objeto da discussão.

O menino magricela se aborreceu e arrancou das mãos da irmã o que queria e atirou-o pela janela, no instante que Jovelino passava. O objeto voador caiu em cheio em sua cabeça e depois caiu aberto na calçada. Ainda zonzo pela pancada, ele abaixa e pega o livro de capa preta, lê alguns trechos e chora, ali mesmo, no meio da rua.

O pai da criança abre a porta de casa e vai ao encontro do tal homem, enquanto crianças assustadas expiam pela janela a cena que se seguia: irmão João pede desculpas pelo ocorrido. O homem com lágrimas nos olhos aperta a Bíblia contra o peito. O espírito Santo estava trabalhando. Irmão João entende o mistério e ora pelo pecador arrependido. A cena chama a atenção das pessoas que passam na rua e Jovelino é convidado a entrar na casa dos crentes. Meia hora depois sai dali um homem diferente. A angustia dava lugar a paz. Uma paz que ele nunca tinha experimentado antes.

A Bíblia em cima da mesa da sala, ainda aberta na página lida pelo que antes era pecador, é lida pelo pequeno Lucas que iniciava seu conhecimento bíblico: “Vinde a mim todos vós que estais casados e oprimidos e eu vos aliviarei”. O menino espera pacientemente a reprimenda dos pais, sem se dar conta que ganhara a primeira alma para Cristo.

Marion Vaz